Escolhi uma vida sem emoções. Isso não significa que tenha escolhido uma vida sem sentimentos. Eu sinto e vivo cada um deles, com um pouco menos de magia e um pouco menos de ilusão. A intensidade desses sentimentos não está ligada a emoção. Nunca esteve. Não sentir bater o coração acelerado diante do perigo, não sentir ansiedade com um encontro marcado, não me desesperar numa reunião... isso tem me trazido bastante confiança nos últimos anos, e tem me ajudado a manter a cabeça no lugar diante de todos os compromissos e responsabilidades. Assim, quase nada me marca, de quase nada lembro. As vezes me safo de alguma situação complicada e penso “você viu aquilo?!”, mas o ponteiro não dá meia volta antes que tudo desapareça. Só que os efeitos colaterais são muitos, não tente isso em casa. Outro dia fui jogar com uns amigos. Foram longos 10 anos. Eu sorria realizada com cada cesta e a descoberta de que tenho poros(!) e pensava: - puxa vida, porque eu esperei tanto?! – então errava a mira e ria, enquanto tentavam me instruir. E quando estava num ambiente confortável, cercada de risos e piadas, veio uma notícia maluca e passei dias tentando digerir, mesmo sem a certeza de que era um fato verdadeiro. Eu não podia perguntar na hora, seria arriscado. A pergunta continua aqui, me desafiando, me prendendo e eu não sei como me portar agora. Então a auto-confiança foi quebrada, não saberei encontrar aquela frieza para agir. E quando estou diante de algo que não posso controlar como uma doença ou o verter sangue, passo mal, desmaio, porque desaprendi a lidar com tudo isso. Eu não me lembro mais da última vez em que estive doente, da última vez em que estive em uma briga, da última vez em que fui realmente inconseqüente. Mas eu vi olhos perdidos, que não sabiam onde estavam indo. Eu vi olhos sábios, convictos demais de sua destreza. Eu vi lindos olhos que escondiam a maldade em sua beleza. Eu vi olhos famintos procurando por outros olhos pra devorar. Eu vi olhos que me confrontavam encarando os meus. Eu vi apenas dois olhos e tive medo.

Queria que a minha vida fosse um livro, pra procurar as respostas na última página.
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BRASIL, Sudeste, Mulher, de 20 a 25 anos, publicidade, evangélica
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